Alberto Gentil de Almeida Pedroso.
16/12/2024
Nesta 4ª edição da Revista Eletrônica “Histórias do Ofício”, descubra o que levou o ilustre Juiz de Direito Alberto Gentil de Almeida Pedroso a se aproximar da área jurídica e dos registros públicos, além de suas previsões para o futuro do setor extrajudicial no Brasil. Gentil também compartilha suas preferências musicais e uma citação marcante. Você vai se surpreender!
1. O que motivou sua aproximação com a área jurídica e com os registros públicos e o extrajudicial? Existe algum evento ou experiência específica que despertou seu interesse por esse tema tão particular?
R. Desde a infância, a área jurídica sempre
esteve presente em minha vida, pois minha família, por parte de
pai, é composta por magistrados e membros do Ministério
Público. Meu pai, Alberto Gentil de Almeida Pedroso Neto, foi juiz
assessor na Corregedoria Geral da Justiça e titular da Segunda Vara
de Registros Públicos, e hoje atua como desembargador na 17ª
Câmara de Direito Público. Ele é, sem dúvida,
meu maior exemplo e inspiração, alguém que sempre
guiou minhas escolhas e meu caminho profissional. Não apenas pela
admiração pela carreira jurídica, mas também
pelas experiências que vivenciei em casa.
Em 2012, iniciei minha trajetória na Corregedoria Geral da
Justiça, onde atuei por quase 8 anos no extrajudicial. Esse
período me proporcionou um profundo apreço pelos registros
públicos e pelos profissionais dessa área. Motivado por essa
experiência, comecei a lecionar, escrever e estudar com mais
profundidade os temas relacionados à atividade extrajudicial. Estou
convicto de que se trata de uma das matérias mais importantes, pois
os principais atos negociais da vida civil se concretizam por meio dos
registros públicos.
Minha dedicação a essa área já se estende por
aproximadamente 20 anos. Em 2004, tive a honra de coescrever meu primeiro
livro sobre registros públicos, abordando o novo Código
Civil e a atividade extrajudicial, em parceria com meu pai.
2. Diante da sua experiência como juiz e professor, qual o maior desafio que os profissionais que ingressam na área extrajudicial enfrentam hoje em dia, e como eles podem se preparar melhor para essas adversidades?
R. A atividade extrajudicial é uma área
específica que envolve diversos diplomas legais essenciais para
profissionais que desejam se especializar. Os desafios são
variados, especialmente em uma sociedade em constante mudança e com
legislações que nem sempre garantem os direitos
adequadamente. É crucial observar as normas de serviço de
cada estado, editadas pelas corregedorias locais, e compreender as
normativas do Conselho Nacional de Justiça.
Para atuar com sucesso, é recomendada a atualização
constante em relação aos julgados estaduais, uma leitura
aprofundada das normativas e a consulta a bons livros sobre o tema, o que
fortalecerá a compreensão da atividade extrajudicial.
3. O senhor também atua como professor em cursos preparatórios para OAB e outras carreiras jurídicas. Na sua visão, como a preparação para esses concursos mudou ao longo dos anos? E o que acha que os candidatos devem fazer para se destacar hoje?
R. Ao longo de mais de 20 anos, lecionei em cursos de
graduação, pós-graduação e em
preparatórios para a OAB, abordando diversas carreiras
jurídicas, incluindo concursos para cartórios e atividades
extrajudiciais. Nessa trajetória, percebi uma significativa
alteração legislativa na última década e um
aumento no grau de dificuldade das provas, que agora exigem candidatos
mais preparados.
As bancas examinadoras buscam uma compreensão ampla do
conteúdo, não se limitando a disciplinas específicas,
mas sim à interligação entre diferentes áreas
do Direito. Como resultado, as provas se tornaram mais complexas, exigindo
que os candidatos compreendam não apenas a
legislação, mas também sua relação com
a jurisprudência e situações doutrinárias.
Esse complexo de estudos atualmente é muito mais abrangente e exige
uma preparação completa. O bom candidato é um
generalista, não um especialista; é aquele que possui uma
sólida compreensão jurídica de todos os ramos do
Direito e consegue desenvolver diversos temas abordados nas respectivas
provas.
4. O direito civil é um campo vasto e complexo. O que o senhor considera ser o maior desafio para os profissionais da área ao lidar com questões que tangem tanto o direito civil quanto o notarial e registral?
R. O Direito Civil é, sem dúvida, um ramo
extremamente complexo, repleto de detalhes fundamentais para a
regulação da vida. Em muitos casos, ele se entrelaça
com os registros públicos, que considero uma disciplina
autônoma e independente, embora interligada a diversas áreas
do Direito. Defendo arduamente a ideia de que os registros públicos
devem ser valorizados como uma matéria própria.
Um bom profissional do Direito, além de ter uma sólida
formação acadêmica, deve possuir uma
compreensão abrangente dos principais julgados e dos grandes temas
deliberados pelas cortes superiores. Essa sensibilidade em
relação à realidade fática, aliada a uma
percepção diferenciada dos casos concretos, permite que ele
se destaque no mercado, defendendo os interesses de seus clientes de
maneira mais eficaz.
É importante ressaltar que, apesar da complexidade do Direito Civil
e de suas múltiplas facetas, os registros públicos têm
autonomia em sua existência, o que deve ser reconhecido. Muitos
aspectos do Direito Civil se refletem nos registros públicos, como
a Lei nº 6.015/73, que materializa e concretiza direitos tratados no
Código Civil. Por exemplo, o casamento é regulamentado pelo
Código Civil, mas sua formalização ocorre
através da legislação de registros públicos.
5. Como membro da Academia Taubateana de Letras Jurídicas, como você vê a conexão entre o direito e a literatura? Há algum paralelo que você acredita ser essencial para a formação dos profissionais jurídicos?
R. De fato, sou membro da Academia Taubateana de Letras
Jurídicas, que visa promover tanto o Direito quanto a literatura. A
academia tem como nome máximo meu avô, Alberto Gentil de
Almeida Pedroso Filho, juiz de Direito do Tribunal de Justiça de
São Paulo, um dos grandes fundadores e professores da Faculdade de
Direito de Taubaté. É uma honra compartilhar esse
espaço com tantos profissionais brilhantes.
Acredito que todo profissional do Direito possui habilidades
significativas em leitura e produção de textos. Alguns se
dedicam a transformar essa prática em um ressignificado
jurídico, aventurando-se a escrever livros, artigos e obras
jurídicas. Pessoalmente, já tive a oportunidade de fazer
isso várias vezes. No entanto, escrever um livro é uma
tarefa desafiadora, que demanda não apenas paixão, mas
também disciplina, para que o trabalho seja claro e alcance o
público da melhor maneira possível.
6. Sua tese de doutorado aborda a gestão dos interinos nas serventias extrajudiciais. O que o inspirou a explorar esse tema?
R. Minha tese de doutorado aborda a questão dos interinos
e a ausência de regramento legal para essa atividade, que desde
sempre foi exercida sem normas claras. É evidente que, após
a defesa do meu doutorado, foi publicado um provimento do CNJ, de maneira
muito detalhada, que merece elogios aos protagonistas desse trabalho
maravilhoso.
Dediquei-me a escrever sobre o assunto, pois, durante meus anos na
Corregedoria, pude testemunhar a indispensabilidade da interinidade e a
falta de um regramento que estabelecesse diretrizes objetivas que pudessem
ser impostas aos interinos no exercício dessa função
designada pelo Estado, muito útil à sociedade. Assim, minha
árdua missão foi nesse sentido, de reflexão sobre a
atividade exercida pelo interino, estrategicamente indispensável na
atribuição de justiça pelo Estado e a ausência
de um regramento com direitos e obrigações claramente
estabelecidos. Meu trabalho talvez, em parte, tenha alimentado a
empolgação no Conselho Nacional de Justiça, nesse
regramento hoje vigente e, de certa forma, talvez tenha atingido parte da
sua função de fomentar um tema tão relevante.
7. Você é autor de diversas obras jurídicas. Existe algum tema no qual ainda não escreveu, mas que gostaria de explorar em um próximo livro? Se sim, o que o fascina nesse tema?
R. Eu tive a oportunidade, ao longo da minha carreira, de
escrever diversos livros sobre diversos temas, sendo a sua grande maioria
voltada à atividade extrajudicial e aos registros
públicos.
Confesso que, em um primeiro momento, eu tenha esgotado a abordagem
daquilo que me parecia mais essencial, ou pelo menos de maior
importância.
Meus livros,
Registros Públicos na Prática, Lei de Registros
Públicos Comentada e Lei dos Cartórios (Nº
8.935/1994)
foram trabalhos maravilhosos. Sou muito realizado nesse campo
literário. Todos os grandes desafios que me foram apresentados eu
consegui enfrentar, com muito esforço, a colaboração
de muitos amigos e o apoio incondicional da minha família.
Essa caminhada infinita que é o estudo de uma disciplina, ou, no
caso, do próprio Direito, tem sido realizada de maneira exitosa.
Tentei, ao longo da minha trajetória, escrever sobre temas que me
fascinavam e que chamavam minha atenção, especialmente
aqueles que se mostravam mais carentes de uma reflexão
acadêmica mais aprofundada.
Como a vida é dinâmica e as alterações sempre
ocorrem, outros temas sem dúvida surgirão. Espero estar
à altura desses novos desafios e poder, quem sabe, contribuir de
alguma forma nessa parte literária também.
8. O seu título de mestre em administração nos EUA é bastante interessante. Poderia nos contar mais sobre essa experiência e como ela influenciou sua carreira?
R. Como professor, autor de livros e magistrado, sempre me
interessei por diversas áreas, incluindo a
administração de empresas. Motivado por essa curiosidade e
pela compreensão de que um magistrado, como gestor de sua unidade
judicial, deve possuir habilidades que não são exigidas em
concursos e não são ensinadas na faculdade, busquei um
aprofundamento acadêmico e decidi fazer um mestrado online em
Administração. Isso me permitiu ser mais útil na
gestão administrativa, na colocação de bons
funcionários nas atividades para as quais eles têm maior
aptidão dentro da serventia a qual sou juiz corregedor permanente e
sem dúvida nenhuma aprender temas novos e diferentes no mundo do
direito.
Foi, sem dúvida, uma experiência riquíssima, que,
embora não tenha sido totalmente aproveitada, trouxe bons frutos
para o exercício da minha atividade.
9. Para finalizar, como o senhor enxerga o futuro do setor extrajudicial no Brasil? Acredita que haverá grandes mudanças nos próximos anos, seja por novas legislações ou por avanços tecnológicos, como já vimos com a digitalização dos serviços?
R. A atividade extrajudicial é, sem dúvida,
riquíssima e, a meu ver, existe um grande equívoco no
enquadramento do artigo 236 da Constituição Federal.
É essencial que haja uma realocação do serviço
extrajudicial, aproximando-o mais do Poder Judiciário no texto
constitucional. Afinal, o serviço extrajudicial é um
braço importantíssimo para o reconhecimento de direitos,
para o fomento da economia e para a legitimação de uma
série de negócios jurídicos indispensáveis ao
desenvolvimento do país.
O acesso à justiça, em inúmeros casos, passa
obrigatoriamente pelo serviço extrajudicial. Por isso, vislumbro um
futuro promissor para as atividades extrajudiciais, que demandarão
mais responsabilidade e atribuições. Isso exigirá,
sem dúvida, uma constante reciclagem e atualização,
especialmente diante dos avanços tecnológicos que tornam o
serviço extrajudicial cada vez mais rápido, dinâmico e
eficaz.
Um exemplo do que considero um equívoco é a exigência
da alteração do regime de bens dos casados, que deve ser
feita por meio de uma demanda judicial, mesmo que na
jurisdição voluntária. Se o regime de bens foi
escolhido na época do casamento, por que, diante de uma necessidade
de mudança, essa atividade não pode ser transferida para o
extrajudicial? Uma reformulação legislativa nesse sentido
é necessária, pois a capilaridade e a segurança
jurídica são temas que merecem a atenção do
Poder Legislativo e do Judiciário em relação
às atividades extrajudiciais, pois inúmeros provimentos e
novas leis têm surgido para contemplar e ampliar as
atribuições decorrentes dela.
Vejo que essa é uma das possibilidades que representaria um
avanço para o futuro. Portanto, reitero que a atividade
extrajudicial deve se aproximar cada vez mais do Poder Judiciário,
o que requer uma realocação constitucional, resultando em
uma prestação de serviço ainda melhor para o
usuário.
Bate-bola
Nome Completo: ALBERTO GENTIL DE ALMEIDA PEDROSO
Profissão: JUIZ DE DIREITO
Data de Nascimento: 09/08/1979
Time do Coração: Corinthians
Hobby Favorito: Jogar tênis
Uma Música que Te Inspira: gosto de muitas do estilo sertanejo
Jorge e Matheus; Marcos e Belutti; Henrique e Juliano e Gusttavo
Lima
Um Livro Inesquecível: A Bíblia
Uma Citação Que Te Marca: Deus marcou o tempo certo para
cada coisa.
Uma Personalidade Que Você Admira: minha família e meus
filhos
Uma Saudade: Tenho muitas, acredito que carregamos pessoas e momentos para
sempre e isso as vezes nos faz pensar e lembrar com carinho.
Redes Sociais: @albertogentilpedroso
"Histórias do Ofício" É uma iniciativa em parceria entre o INR e a jornalista Samila Ariana Machado. A coluna traz entrevistas exclusivas com personalidades do setor notarial e registral do Brasil e do exterior, revelando não apenas suas trajetórias profissionais, mas também seu impacto social e sua essência humana. O projeto conta com o apoio de importantes nomes e instituições do segmento: ICNR — Instituto de Compliance Notarial e Registral, Blog do DG, GADEC Cartórios — Grupo de Alto Desempenho em Estudos de Cartório, Pedro Rocha (Tabelião e Registrador Civil), Rogério Silva (empresário especializado em livros raros, clássicos e antigos), Jornal Diário, Douglas Gavazzi — Advocacia e Consultoria Notarial e Registral, e Estudos Notariais.
Com um olhar sensível e aprofundado, Histórias do Ofício valoriza os profissionais que constroem, com ética e dedicação, o presente e o futuro do serviço extrajudicial.