Aline Rodrigues de Andrade
20/01/2026
Disciplina, serviço e Justiça moldam a trajetória de uma jurista do extrajudicial. Com sólida formação acadêmica e vivência prática no foro extrajudicial, a jurista atua na solução de casos complexos, aliando rigor técnico, sensibilidade humana e compromisso com a segurança jurídica.
1. Sua trajetória tem início no Estado do Paraná, em um lar marcado pela disciplina militar. Como esse contexto influenciou sua formação pessoal?
R. Minha formação foi moldada pela convivência em uma família militar, onde a disciplina, a honra e a lealdade não eram abstrações, mas princípios vivenciados diariamente. Meu pai, militar, e minha mãe, com sua força afetuosa, construíram em mim o senso de responsabilidade e a consciência de que cada ação deve portar integridade. Foi nesse ambiente que aprendi a olhar a vida com rigor ético, mas também com humanidade.
2. A espiritualidade cristã, herdada de sua mãe, aparece como elemento essencial em sua trajetória. Como ela se manifesta em sua vida?
R. A fé cristã foi-me apresentada como herança amorosa de minha mãe. Não se trata de mera doutrina, mas de um modo de servir ao mundo com dedicação e amor. Essa espiritualidade me recorda — sempre — que a técnica jurídica precisa estar a serviço do bem, da justiça e da humanidade. A fé, portanto, não é separada da vida profissional; ela confere sentido ao esforço diário, lembrando-me do valor de cada pessoa e de cada história que chega ao ambiente extrajudicial.
3. Sua família ocupa lugar central em sua narrativa. De que maneira essa convivência familiar influenciou sua identidade pessoal e profissional?
R. A família é a base de minha identidade. Dos meus pais, Nicanor e Claudia, herdei valores e seriedade dos princípios. Minha irmã, Ana Victória, acompanha-me com lealdade e parceria. E a memória de meu irmão Alan permanece como guia silencioso, lembrando-me da preciosidade do tempo e da importância de viver com empatia. Cada etapa de minha trajetória é, de alguma forma, homenagem a eles.
4. Além da formação jurídica e acadêmica, a senhora é triatleta de “endurance”. Como o esporte dialoga com sua vida profissional?
R. O esporte é, para mim, escola de resiliência. No triathlon, o corpo aprende a suportar, a mente aprende a persistir e o espírito aprende a encontrar sentido no esforço. Essa prática me ensinou a gerir o tempo com precisão, a distinguir o essencial do acessório e a valorizar cada momento vivido. Levo esses ensinamentos ao exercício jurídico: seja numa análise normativa complexa, seja na convivência com equipes ou com o público, a disciplina do esporte fortalece minha capacidade de enfrentar desafios com serenidade e constância.
5. A aprovação em Direito pela UFPR, em 2009, foi um marco. Como essa experiência universitária contribuiu para sua formação jurídica?
R. Ingressar na Universidade Federal do Paraná foi um marco. A UFPR não apenas me formou tecnicamente, mas me ensinou a enxergar o Direito como linguagem de transformação social. Os estágios no Tribunal de Justiça e em escritórios de excelência — sobretudo na Justen, Pereira, Oliveira & Talamini — permitiram-me contato direto com o rigor acadêmico e a precisão da escrita jurídica. Com a orientação do Dr. Fernão Justen de Oliveira, dei meus primeiros passos no universo científico, especialmente no Direito Administrativo. Ali descobri minha vocação para a pesquisa e para a reflexão aprofundada.
6. Após sua formação em 2014, a senhora passou a atuar como advogada pesquisadora. O que esse período representou para sua construção profissional?
R. Esse período foi decisivo para aprimorar técnicas de escrita jurídica e consolidar meu apreço pela pesquisa. A advocacia conduzida sob olhar analítico permitiu-me aprofundar o estudo dos fundamentos, das estruturas e das transformações do ordenamento jurídico.
7. Em 2015, sua carreira se volta para o universo extrajudicial. O que despertou seu interesse por esse setor?
R. No escritório Macedo & Guedes, fui introduzida ao cotidiano notarial e registral. Percebi, então, que o extrajudicial, longe de ser mero apêndice do Judiciário, constitui espaço de solução célere, eficaz e profundamente humana de conflitos e demandas sociais. Foi nesse ambiente que compreendi o impacto concreto que a atividade tem na vida das pessoas e na segurança jurídica do país. Desde então, dedico-me a esse ramo com crescente afinco.
Na foto, Aline, Rachel Ximenes, presidente da Comissão Notarial e de Registros Públicos da OAB/SP e Samila Machado, sócia do ICNR e jornalista desta coluna, durante o lançamento do livro Comentários ao Código Nacional de Normas, em 2024, na sede da OAB/SP.
8. Sua produção científica é vasta e diversificada. Poderia esclarecer a natureza dessas contribuições?
R. Minhas produções científicas abarcam diferentes formatos e propósitos, sempre orientadas por acurada técnica, rigor metodológico e permanente atualização normativa.
Em primeiro lugar, destaco os artigos científicos publicados em revistas acadêmicas, nos quais desenvolvo análises aprofundadas e críticas sobre temas sensíveis da atividade extrajudicial. São textos construídos com enfoque doutrinário e contemporâneo, buscando dialogar com a evolução normativa e com os desafios emergentes do setor.
Além disso, contribuo com capítulos e estudos em livros jurídicos de caráter técnico-especializado, destinados a examinar questões estruturantes do Direito Administrativo, Processual Civil, Notarial e Registral. Nesses trabalhos, procuro sistematizar tendências legislativas e oferecer subsídios teóricos e práticos relevantes para operadores do Direito.
Por fim, participo da elaboração de obras produzidas em parceria com o Instituto de Compliance Notarial e Registral, sob a coordenação dos amigos João Rodrigo e Samila Machado. Esses livros têm caráter colaborativo e visam difundir interpretações atualizadas da legislação, práticas inovadoras e reflexões alinhadas às demandas contemporâneas das serventias extrajudiciais.
Minha produção, portanto, transita entre revistas acadêmicas, obras jurídicas especializadas e projetos editoriais institucionais, sempre com o compromisso de contribuir para o avanço técnico e científico do extrajudicial brasileiro.
9. Em 2022, sua trajetória acadêmica avança com a entrada no mestrado da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Por que escolheu a extrajudicialização do acesso à Justiça como tema de pesquisa?
R. A extrajudicialização configura uma das mais relevantes evoluções contemporâneas do sistema jurídico. Minha pesquisa concentra-se na atuação das serventias extrajudiciais na mediação e conciliação — práticas impulsionadas pioneiramente pelo Conselho Nacional de Justiça e, a partir disso, recepcionadas e regulamentadas pelos tribunais estaduais, como o Tribunal de Justiça do Paraná. Esse fenômeno amplia o acesso à Justiça, desjudicializa conflitos e oferece soluções mais céleres e eficientes à população.
10. Em 2023, a senhora assume a posição de registradora substituta no 3º Serviço de Registro de Imóveis de Curitiba. Quais foram os principais aprendizados dessa vivência?
R. A atividade registral imobiliária é complexa e fascinante. No 3º Registro de Imóveis, pude conjugar todo o aprendizado teórico e prático da advocacia com os desafios da gestão administrativa, do conhecimento histórico-documental e da constante atualização normativa. Desenvolvi habilidades que vão desde a coordenação de equipes até o refinamento técnico necessário para assegurar a regularização imobiliária e a confiança pública. Essa experiência consolidou minha compreensão holística da atividade extrajudicial.
11. Hoje, atuando como consultora jurídica do foro extrajudicial, quais são seus horizontes futuros?
Enxergo o futuro com entusiasmo e senso de responsabilidade. O foro extrajudicial brasileiro vive um momento de expansão e amadurecimento, exigindo profissionais tecnicamente preparados, comprometidos com a legalidade e sensíveis ao relevante impacto social da atividade. Minha trajetória, construída entre a advocacia, o contencioso estratégico e a vivência prática nas serventias extrajudiciais, permite-me hoje atuar de forma técnica, segura e alinhada à realidade dos cartórios e do mercado imobiliário.
A experiência como advogada, registradora substituta e pesquisadora do Direito fortaleceu minha visão sistêmica do extrajudicial e consolidou meu compromisso com a segurança jurídica, a eficiência institucional e a conformidade normativa. Atualmente, atuo com advocacia imobiliária, regularização de imóveis e consultoria jurídica especializada para serventias extrajudiciais, permanecendo aberta a novas oportunidades que me permitam contribuir para o fortalecimento do sistema, a modernização dos serviços e a democratização do acesso à Justiça por meios eficazes, humanos e responsáveis.
Nome Completo: Aline Rodrigues de Andrade
Profissão: Advogada
Data de Nascimento: 17 de Junho de 1992
Time do Coração: Athletico Paranaense
Hobby Preferido: Triathlon
Uma Música que Inspira: Home, Phillip Phillips
Uma amizade que o extrajudicial te deu: Gabriela Almeida Marcon Nora
Um Livro Inesquecível: Bíblia Sagrada
Uma Citação Que Te Marca: Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado, James Baldwin
Uma Personalidade Que Você Admira: Jesus Cristo
Uma Saudade: meu irmão, Alan
Redes Sociais: ali_andrade
"Histórias do Ofício" É uma iniciativa em parceria entre o INR e a jornalista Samila Ariana Machado. A coluna traz entrevistas exclusivas com personalidades do setor notarial e registral do Brasil e do exterior, revelando não apenas suas trajetórias profissionais, mas também seu impacto social e sua essência humana. O projeto conta com o apoio de importantes nomes e instituições do segmento: ICNR — Instituto de Compliance Notarial e Registral, Blog do DG, GADEC Cartórios — Grupo de Alto Desempenho em Estudos de Cartório, Pedro Rocha (Tabelião e Registrador Civil), Rogério Silva (empresário especializado em livros raros, clássicos e antigos), Jornal Diário, Douglas Gavazzi — Advocacia e Consultoria Notarial e Registral, e Estudos Notariais.
Com um olhar sensível e aprofundado, Histórias do Ofício valoriza os profissionais que constroem, com ética e dedicação, o presente e o futuro do serviço extrajudicial.