Carolina Catizane.
02/06/2026
Carolina Catizane é mãe, esposa e uma profissional cuja trajetória é marcada por dedicação, estudo contínuo e compromisso com o serviço público. Iniciou sua carreira como advogada e, ao longo dos anos, construiu uma sólida atuação na atividade notarial e registral, sendo hoje a Tabeliã Titular do 8º Ofício de Notas da Comarca de Salvador, na Bahia e presidente do Colégio Notarial do Brasil – Seção Bahia. Possui MBA em Comércio Exterior e Negócios Internacionais, é especialista em Estudos Diplomáticos e Direito Internacional, especialista em Direito Notarial e Registral, Mestre em Direito Empresarial e atualmente cursa Mestrado em Ciências Jurídicas pela Universidade Autônoma de Lisboa, em Portugal, além de Doutorado em Família. Palestrante e professora visitante da Pós-Graduação em Direito Imobiliário da Faculdade Baiana de Direito e da Universidade Católica de Salvador, Carolina alia a prática profissional à vida acadêmica, contribuindo para a formação de novos profissionais do Direito. Fluente em alemão e inglês, acumulou ampla experiência ao longo de sua trajetória, tendo atuado no 2º e 7º Tabelionatos de Notas e Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais do Subdistrito de Santo Antônio do Carmo, todos em Salvador/BA; Ofício Único de São Miguel do Gostoso, Ofício Único de Carnaubais e Ofício Único de Touros, todos no Rio Grande do Norte (RN), além do Registro de Imóveis e Anexos de Taquaritinga, em São Paulo e do Registro Civil com atribuição de Notas de Catas Altas, Comarca de Santa Bárbara – Minas Gerais. Sua história reflete não apenas uma carreira de excelência técnica, mas também um compromisso profundo com o aperfeiçoamento do ofício notarial, a educação jurídica e a transformação social por meio do Direito.
1. Ao longo da sua trajetória, sua mãe sempre falou da importância da independência. Em que momento essa ideia deixou de ser um conselho de mãe e passou a se tornar algo profundamente seu, da Carolina Catizane, esse desejo quase visceral de vencer na vida e construir o próprio caminho?
R. Ser independente foi sempre algo que eu cresci acreditando ser possível e o único caminho viável para as conquistas que eu eventualmente tivesse ao longo da vida. Não ser independente nunca foi uma opção para mim. Mais que um conselho e a maneira como minha mãe nos criou, a independência também mostrou a sua importância quando a própria vida começou a me colocar em situações em que ninguém poderia decidir por mim. Quando percebi que o que eu construísse, ou deixasse de construir, seria consequência direta das minhas escolhas.
2. Você e sua irmã Débora dividem mais do que o sobrenome: as duas estão no oitavo ofício, em capitais diferentes. No começo ela foi sua referência e incentivo. Hoje, quando vocês olham para essa coincidência ou ‘providência’, como vocês brincam, o que isso diz sobre destino, escolha e o quanto uma mulher pode abrir caminho para outra?
R. Nós costumamos falar que, mais que coincidência, foi providência divina mesmo. Minha irmã Débora assumiu o 8º Tabelionato de Notas de Campo Grande acho que em 2015. Anos depois, em 2017, na audiência de reescolha do concurso da Bahia, eu precisava tomar uma decisão muito importante. Eu estava no Registro Civil de Santo Antônio do Carmo, também em Salvador, mas, naquele momento, optei por seguir para o 8º Tabelionato de Notas. Quando percebi que também estaria no oitavo ofício, em outra capital, senti como se a vida estivesse desenhando algo que nenhuma de nós poderia ter planejado. Existiu nosso esforço, escolha, e a coragem, mas sobretudo a providência de Deus. Para mim, o caminho de uma mulher nunca termina nela mesma. Ele ilumina, inspira e, muitas vezes, fortalece o caminho de outra.
3. Já esteve em cidades pequenas, cartórios modestos, realidades duras. O que o interior ensinou que nenhuma capital jamais ensinaria?
R. O interior me ensinou humanidade na sua forma mais direta e verdadeira e me mostrou que o maior propósito à frente de uma serventia é servir à população, oferecendo o nosso melhor. Além disso, me ensinou, principalmente, o que significa começar do zero. Assumir o 8º Tabelionato de Salvador em 2017, não foi assumir uma estrutura consolidada ou dar continuidade a algo que já funcionava, foi construir, organizar, estruturar e, além dos desafios diários fazer o cartório existir, já que àquela época ele não era um cartório relevante no contexto de Salvador.
4. “Cheguei a Salvador para fazer a prova oral, com a barriga enorme, já com sete ou oito meses de gestação, estudando até 16 horas por dia e carregando o sonho de voltar a viver numa capital.” Quando olha para trás e vê gente desistindo por muito menos, o que essa Carolina daquele quarto de estudo diria hoje sobre disciplina, escolha e parar de reclamar?
R. Ela diria que ninguém vence reclamando, vence quem permanece. Diria ainda que disciplina não é motivação porque a motivação geralmente é passageira, mas a disciplina é uma decisão renovada diariamente, especialmente nos dias em que nada parece fácil. Além disso, ela diria que grandes sonhos quase sempre exigem processos difíceis, que o crescimento por vezes dói, cansa, isola, exige renúncia, silêncio e uma força que muitas vezes ninguém vê ou entende. Diria que, em muitos momentos, você não continua porque está bem, mas continua porque decidiu não desistir de quem está se tornando. Com a serenidade de quem já atravessou esse caminho, eu diria que uma vida diferente não nasce de desejos diferente, mas nasce de escolhas diferentes, repetidas todos os dias.
5. “Mineira de nascimento e baiana por opção, assumi o Cartório Catizane quando ele ainda era o menor de Salvador, e tinha apenas 30 anos”. O que esteve por trás dessa transformação tão profunda e quais resultados concretos essa revolução trouxe para o cartório?
R. O que esteve por trás dessa transformação foi, antes de tudo, inconformismo. Eu nunca acreditei que tamanho, estrutura ou histórico definem o potencial de uma instituição ou de uma pessoa. Quando assumi, o cartório era o menor Tabelionato de Notas de Salvador, com pouca expressão, baixa visibilidade e muitos desafios estruturais. Eu não encontrei um modelo pronto para dar continuidade, encontrei algo que precisava ser reconstruído, reposicionado e fortalecido. A transformação foi construída com três pilares muito claros, que levo comigo até hoje, gestão profissional, investimento contínuo em tecnologia e uma cultura de atendimento centrada nas pessoas. Reorganizamos processos, qualificamos a equipe, modernizamos sistemas, ampliamos a eficiência e aproximamos o cartório da realidade das pessoas. A maior mudança foi principalmente cultural, o Cartório deixou de ser apenas um lugar onde se praticam atos formais para nos tornarmos uma instituição acessível, confiável e verdadeiramente útil na vida das pessoas que a elas recorrem. Os resultados vieram de forma concreta, com o crescimento do cartório, ampliação da capacidade de atendimento, modernização dos serviços, fortalecimento institucional e reconhecimento social. Mais do que crescer em números, o 8º Tabelionato de Salvador, se transformou no Cartório Catizane e mais do que relevância, ganhou identidade e propósito, que sempre foi a verdadeira transformação.
6. Na bio do Instagram, está escrito ‘cartório sem complicação’ e ‘aprenda antes do problema’. Essa visão nasceu de algo que viveu ou de algo que viu outras pessoas passarem e pensou: ninguém precisa passar por isso?
R. Sim, nasceu, principalmente, de observar o quanto as pessoas sofrem por falta de informação. Ao longo da minha trajetória profissional, vi muitas famílias enfrentarem conflitos evitáveis, patrimônios se perderem por desorganização, decisões importantes sendo tomadas tarde demais, não por descuido, mas por desconhecimento. Percebi que, muitas vezes, o problema não é jurídico, mas é informacional. As pessoas simplesmente não sabem o que poderia ter sido feito antes. E foi aí que algo ficou muito claro para mim que o cartório não deve existir apenas para resolver situações quando elas já se tornaram difíceis. Ele também deve existir para orientar, prevenir e dar segurança às pessoas antes que o problema nasça. Cartório sem complicação, é uma escolha de linguagem e nasce da minha vontade de tornar o Direito compreensível para qualquer pessoa. Já a expressão “aprenda antes do problema” é uma missão pessoal, de transformar informação em proteção para as pessoas. Se o conhecimento pode evitar dor, conflito e desgaste… então ele precisa ser compartilhado, este é o propósito que guia tudo o que eu comunico.
7. Ao compartilhar o trabalho, a rotina, a casa, os exercícios e até os looks, sempre com muito bom gosto, percebe que isso inspira as pessoas em bem-estar, organização e sofisticação, e acaba também transformando a forma como o cartório é visto?
R. Sim, transforma e isso acontece de forma muito natural. Durante muito tempo, o Cartório foi percebido como um espaço distante, formal e, para muitas pessoas, até intimidador. Quando eu compartilho minha rotina, meu trabalho, minha organização, minha família, e os meus valores, eu mostro que por trás da função existe uma pessoa real, comprometida, disciplinada e profundamente responsável pelo que faz. Isso aproxima, humaniza e gera confiança e então, as pessoas entendem que o cuidado que eu tenho com a minha vida também se reflete na forma como conduzo o cartório. Organização, atenção aos detalhes, busca por qualidade, responsabilidade, uma vida absolutamente coerente com a profissão que eu exerço. E existe algo ainda mais importante, que é, quando o cartório se torna mais acessível, ele também se torna mais compreensível. E quando as pessoas compreendem, elas confiam mais, procuram mais e utilizam melhor os serviços. Para mim compartilhar não é uma exposição vazia, mas é também comunicação dos meus valores.
8. Você enfrentou concursos duríssimos, chegou a um cartório de destaque e, ainda assim, já confessou não se sentir “boa o suficiente”. Em que fase da trajetória essa autocrítica deixou de ser obstáculo e passou a se transformar em impulso?
R. Isso mudou quando eu entendi que esta sensação de às vezes não me sentir suficientemente boa, não era um sinal de incapacidade, mas um sinal de responsabilidade. Durante muito tempo, eu via essa autocrítica como peso, como se fosse algo que me colocasse sempre em débito comigo mesma. Com o tempo, percebi que ela também me mantinha em movimento, me fazia estudar mais, me preparar mais, observar mais, evoluir sempre. Acho que o ponto de virada foi quando deixei de lutar contra essa sensação e comecei a escutá-la com maturidade. Hoje ela não me paralisa, ela me orienta. Eu não preciso mais me sentir pronta para avançar, eu avanço justamente porque sei que sempre há algo a aprender, a ajustar, a evoluir. A autocrítica deixou de ser um obstáculo quando eu entendi que excelência não é um lugar onde se chega, mas um caminho onde se permanece.
9. Depois de conquistar o que muitos sonham, o que ainda tira o sono: errar, estagnar ou decepcionar a si mesma?
R. Eu acredito que o erro faz parte de quem está em movimento, de quem assume responsabilidade, de quem decide crescer. Eu aprendi a lidar com o erro como parte do processo, que ensina, ajusta a rota e traz amadurecimento. Acho que uma ideia que me traz inquietação seria parar de evoluir, porque para mim, crescimento não é meta cumprida, é uma forma de viver. É continuar sempre aprendendo, melhorando, expandindo, servindo melhor, buscando ser melhor. Acho que se fosse pensar em algo para me tirar o sono, seria não a queda, mas parar de caminhar.
10. Se fosse possível voltar no tempo e encontrar a Carolina recém-formada, o que ela diria a si mesma, não como tabeliã, mas como mulher?
R. Eu diria para ela seguir, confiando mais no tempo da vida. Diria que nem tudo precisa ser provado tão cedo, nem com tanta dureza consigo mesma. Que força não é viver em estado permanente de resistência, mas é também acolher as próprias fragilidades e reconhecer o próprio valor antes que o mundo reconheça. Diria para não se culpar tanto, não se cobrar além do necessário e não carregar sozinha pesos que não pertencem a ela. Diria que muitas das coisas que hoje parecem urgente, um dia vão apenas fazer parte da história. E que ela vai sobreviver e crescer, mesmo em relação às coisas que hoje parecem grande demais. E, sobretudo, diria algo muito simples, você não precisa se tornar extraordinária para ser digna de amor, respeito ou admiração. Você já é suficiente enquanto constrói quem ainda vai se tornar. Faça a sua parte, confie em Deus, o caminho está sendo escrito, mesmo quando você ainda não consegue enxergar.
11. Como você prefere ser chamado(a)?
R. Não tenho uma preferência. Prefiro ser chamada como a pessoa que fala comigo tenha maior conforto. Carolina, Catizane.
12. Qual é a sua atuação profissional?
R. Eu sou Tabeliã de Notas.
13. Em que data você nasceu?
R. 09/01/1985
14. Qual time você torce?
R. Eu torço para o Cruzeiro, mas nunca fui muito praticante.
15. O que você gosta de fazer no seu tempo livre?
R. No meu tempo livre, gosto de desacelerar e me reconectar com o que me equilibra. Gosto de conversar com Deus, de estar com a minha família, que é o meu centro. Gosto de estudar, cuidar do corpo com atividade física e organizar a vida com calma, sem pressa. Eu também amo viajar, conhecer novos lugares, novas culturas, observar as pessoas e o mundo, isso me inspira muito.
16. Existe alguma música que te inspira?
R. Sim, eu gosto de músicas que falam de propósito, de fé e de recomeço. Aquelas que lembram que a vida é feita de processos, que o caminho nem sempre é fácil, mas que existe sentido em continuar. Músicas que fortalecem, que trazem paz e que ajudam a manter o coração firme mesmo nos dias mais desafiadores.
17. Que amizade marcante o extrajudicial te proporcionou?
R. O extrajudicial me presenteou com algumas amizades valiosas, mas as mais marcantes são aquelas construídas no cotidiano da responsabilidade compartilhada. São relações que nasceram do respeito técnico, da troca de experiências, dos desafios enfrentados juntos, das decisões difíceis, das conversas sinceras e do apoio silencioso nos momentos mais exigentes da profissão. O que torna essas amizades tão especiais é que elas não se formam apenas pela convivência, mas pela confiança, pela certeza de que o outro entende exatamente o peso das escolhas, a seriedade do ofício e o compromisso que assumimos todos os dias.
18. Qual livro foi mais significativo para você?
R. Sem dúvida, a Bíblia. Eu gosto muito de ler histórias, especialmente dramas, narrativas profundas sobre a condição humana, escolhas, perdas e recomeços, mas a Bíblia reúne tudo isso de uma forma única. Ela fala de fé, de propósito, de dor, de esperança, de queda e de redenção e, em diferentes momentos da vida, parece sempre dizer algo novo, exatamente o que precisamos ouvir. Para mim, não é apenas um livro de leitura, é um lugar de orientação, de reflexão e de fortalecimento interior. É onde encontro sentido, direção e paz.
19. Existe alguma frase ou citação que te representa?
R. Se você pode sonhar, você pode realizar.
20. Qual personalidade você admira?
R. Eu admiro muitas pessoas, porque acredito que sempre há algo a aprender com diferentes trajetórias e histórias de vida.
Mas, se eu tivesse que escolher uma única personalidade, sem dúvida escolheria Jesus.
Pela forma como viveu, pela mensagem de amor, de compaixão, de coragem moral e de serviço ao próximo. Pela capacidade de transformar vidas não pela imposição, mas pelo exemplo.
Para mim, é a maior referência de humanidade, propósito e sentido.
21. Existe algo ou alguém de quem você sente saudade?
R. Eu sinto saudades do meu pai, que perdi aos dezessete anos. Sinto saudade da presença, das conversas, dos conselhos, daquela segurança silenciosa que só um pai sabe transmitir. Ele faz parte de quem eu sou, das decisões que tomo, da forma como enxergo a vida e eu sou muito grata por isso. A saudade dele permanece mesmo passados mais de vinte anos desde a partida dele, mas junto com ela permanece também o amor, os ensinamentos e tudo o que ele deixou em mim.
22. Quais são suas redes sociais?
R. Tenho o meu instagram @carolinacatizane e o do cartório @cartoriocatizane
"Histórias do Ofício" É uma iniciativa em parceria entre o INR e a jornalista Samila Ariana Machado. A coluna traz entrevistas exclusivas com personalidades do setor notarial e registral do Brasil e do exterior, revelando não apenas suas trajetórias profissionais, mas também seu impacto social e sua essência humana. O projeto conta com o apoio de importantes nomes e instituições do segmento: ICNR — Instituto de Compliance Notarial e Registral, Blog do DG, GADEC Cartórios — Grupo de Alto Desempenho em Estudos de Cartório, Pedro Rocha (Tabelião e Registrador Civil), Rogério Silva (empresário especializado em livros raros, clássicos e antigos), Jornal Diário, Douglas Gavazzi — Advocacia e Consultoria Notarial e Registral, e Estudos Notariais.
Com um olhar sensível e aprofundado, Histórias do Ofício valoriza os profissionais que constroem, com ética e dedicação, o presente e o futuro do serviço extrajudicial.