Rogério Portugal Bacellar.

30/06/2026

O nome por trás da estrutura que moldou o extrajudicial no Brasil. Fundador e idealizador da CNR, ENNOR, RARES e do PQTA, e protagonista de projetos que modernizaram os cartórios, Bacellar relembra os caminhos, desafios e decisões que ajudaram a impulsionar a atividade extrajudicial no país.

Esta entrevista traduz, em sua essência, leveza, sensibilidade e profunda relevância, refletindo a grandiosidade da trajetória do nosso convidado. Desta vez, realizamos uma entrevista presencial diretamente da sede do 6º Tabelionato de Protesto de Curitiba, ao lado do Dr. Rogério Portugal Bacellar — uma das figuras mais emblemáticas do extrajudicial brasileiro. Reconhecido como um verdadeiro pioneiro, Bacellar é responsável por iniciativas criativas, inovadoras e, sobretudo, corajosas, que marcaram o Brasil no âmbito da atividade extrajudicial. Ele reúne, entre tantas distinções, o título de Cidadão Honorário, reconhecido em diferentes estados do país, como Morretes (PR), Bahia, Paraíba, Pernambuco, Brasília, Mato Grosso, Alagoas (Maceió), Ceará e, agora, também em São Luiz (MA), além de Visitante Ilustre de Mato Grosso do Sul, Cidadão Benemérito do Paraná e Vulto Emérito de Curitiba — honrarias que traduzem o respeito e a admiração conquistados ao longo de sua caminhada. Durante a entrevista, fomos convidados a conhecer a estrutura construída em Brasília, um espaço que reúne Confederação, museu, biblioteca e escola (ENNOR). O museu conta, inclusive, com a doação de sua coleção pessoal de máquinas de escrever antigas. Já a biblioteca é composta por parte de seu acervo e pela valiosa coleção de Antônio Carlos Penteado, Distribuidor do Rio de Janeiro, coordenador do movimento para a privatização durante a constituinte de 1988, gentilmente doada por sua família, e que hoje dá nome ao espaço. Uma entrevista que revela um legado de sucesso.

 

 

Rogério Barcelar

Samila Machado ao centro, o advogado João Stinghen à esquerda e o Dr. Rogério Bacellar à direita, no 6º Tabelionato de Protesto de Curitiba.

 

1. Como é que foi a sua infância? Como é que você era quando era criança? O que você queria ser quando crescesse?

Eu, no início, queria ser médico. Cheguei a estudar em cursinho preparatório para Medicina. Depois, resolvi prestar concurso para cartório, isso ainda na década de 70. Fiz o concurso, comecei a gostar da área, mas, nessa época, eu já havia ingressado no curso de Direito. Quando prestei o vestibular, já estava cursando Direito. Fui aprovado nos concursos para Santo Antônio da Platina e Morretes, no Paraná. Optei por assumir a serventia em Morretes, pela proximidade com Curitiba. Em Santo Antônio da Platina, eu teria Jacarezinho como referência para a faculdade, mas o curso ainda não era reconhecido pelo MEC, então escolhi Morretes em função disso. Permaneci em Morretes de 1970 até 1981, quando assumi a interventoria do Cartório do Bacacheri, em Curitiba. Em 1984, saiu minha efetivação por remoção. Permaneci no Bacacheri até 2015. Nesse período, já estava pleiteando a remoção para o processo de protesto. Em 2015, obtive êxito tanto no CNJ quanto no Supremo e, então, assumi o cartório de protesto.

 

 

Rogério Barcelar

Dr. Rogério Bacellar, em registro de sua infância.

 

2. E o doutor é de Curitiba? Sua família é toda do sul do país?

Sim, sou curitibano, nasci em Curitiba, no Paraná, e tenho raízes profundamente ligadas ao Sul do Brasil. Minha família construiu sua história nessa região, e foi ali que aprendi valores que me acompanham até hoje, como o respeito às pessoas, o compromisso com a palavra e a dedicação ao trabalho. Embora minha atuação institucional tenha me levado a conhecer de perto as diferentes realidades do país e a construir relações em todas as regiões do Brasil, carrego com muito orgulho minhas origens paranaenses. São elas que ajudaram a moldar minha forma de enxergar a vida, o serviço à sociedade e a importância de construir pontes entre as pessoas e as instituições. Acredito que nossas raízes nos fortalecem, mas é a convivência com a diversidade do Brasil que amplia nossa visão e nos permite contribuir de maneira mais significativa para o desenvolvimento do país. Minha família sempre foi muito ligada ao Poder Judiciário. Meu avô foi presidente do Tribunal de Justiça, atuou como interventor e ocupou a presidência por 15 vezes. Meu pai e alguns tios também foram desembargadores. Hoje, tenho um irmão e um sobrinho que são desembargadores. Então, sempre tivemos essa conexão com o Judiciário.

 

 

Rogério Barcelar

Dr. Rogério, ainda criança, ao lado de seus irmãos e de seu pai.

 

3. A sua atuação com os cartórios, com Direito, então, surgiu dessa influência toda da família?

Não, não houve influência da minha família, nem na minha entrada em cartório. Isso aconteceu por influência de um colega, que depois se tornou um grande parceiro, o Antônio Nascimento, que era tabelião em Tomazina, no Paraná. Ele me incentivou a prestar o concurso, disse que me enviaria o edital e que queria que eu fosse aprovado. A partir daí, comecei a estudar, fiz o concurso e acabei sendo aprovado nas duas opções. Fui nomeado e precisei escolher. Na época, o concurso era por especialidade: Morretes abrangia tabelionato, registro de imóveis e protesto; já Santo Antônio era apenas tabelionato de protesto. Optei por Morretes e permaneci lá. Posteriormente, também assumi o CONPREVI Conselho de Previdência Complementar dos Notários e Registradores do Estado do Paraná Fiquei por mais de 10 anos como presidente da Carteira. Depois, deixei a presidência e assumi a presidência da ASSEJEPAR (Associação dos Serventuários de Justiça do Estado do Paraná) e da ANOREG. Também atuei na ANOREG Paraná. Posteriormente, houve o desmembramento: a ASSEJEPAR ficou voltada ao judicial, e nós permanecemos com a ANOREG. Fui o segundo presidente da ANOREG do Paraná, mas, na prática, o primeiro, porque fui eu quem lavrei a primeira ata. Na ANOREG Paraná, foi fundador do FUNARPEN, o Fundo de Apoio ao Registrador de Pessoas Naturais do Paraná, além da escola de notários e registradores. Também realizei uma série de viagens por todo o Paraná, com foco na integração dos cartórios. Eram encontros itinerantes: levávamos toda a diretoria, além de juristas convidados, para ministrar palestras em diversas regiões do estado. Nesse período, promovemos várias iniciativas e também adquirimos uma nova sede para a ANOREG Paraná, ampliando a estrutura da entidade. Esse foi o trabalho que desenvolvi aqui. Depois, a Léa Emília Braune Portugal, que era presidente da ANOREG Brasil, me convidou para ser o sucessor dela. Daí eu viajei o Brasil inteiro com um planejamento estratégico, mostrando o que podia ser feito para a ANOREG Brasil melhorar. Porque, quando eu assumi, a ANOREG praticamente não era conhecida — tinha gente que achava até que era nome de remédio. Então, começamos a trabalhar para levar o nome da ANOREG para o Brasil inteiro. Fizemos reuniões descentralizadas, nos mesmos moldes do que eu já tinha feito no Paraná, e com isso conseguimos expandir a atuação e estruturar as ANOREGs estaduais. A maioria dos estados já tinha associação, mas ainda faltavam alguns, e a gente conseguiu completar. Aí, o primeiro passo foi seguir o planejamento estratégico, que incluía a privatização da Bahia e do Acre — e nós conseguimos realizar isso nos dois estados. Criamos a desjudicialização. Fui eu quem levou ao ministro Márcio Thomaz Bastos o Projeto de Lei do inventário, da separação e do divórcio, e conseguimos a aprovação. Também trabalhamos para viabilizar a retificação do Registro Civil e do Registro de Imóveis diretamente em cartório, sem a necessidade de intervenção judicial. O registro fora de prazo do Registro Civil também foi uma conquista nossa, porque antes o juiz precisava acompanhar cada campanha de sub-registro — caso contrário, era ele quem tinha que deferir o pedido. Conseguimos mudar isso. Assim, o próprio titular do cartório da região passou a poder deferir ou indeferir o pedido de registro fora de prazo. Também conseguimos afastar a exigência de aposentadoria aos 70 anos para os cartorários, já que a nossa atividade é de natureza privada. Foi uma verdadeira batalha, mas o ministro Moreira Alves, que era uma sumidade e atuou como relator, acolheu esse entendimento. E, graças a Deus, muitos outros pleitos nossos também foram atendidos.

4. Dentre as iniciativas, várias iniciativas que o doutor já teve dentro do âmbito judicial e extrajudicial, qual que mais te orgulha?

É difícil escolher apenas uma iniciativa, porque cada conquista representou uma resposta a uma necessidade real da população brasileira. Tenho orgulho de praticamente tudo o que ajudamos a construir ao longo dessas décadas, porque o foco sempre foi o mesmo: aproximar a Justiça do cidadão, simplificar procedimentos e levar mais dignidade às pessoas. Se eu tivesse que destacar algo, certamente mencionaria a desjudicialização de procedimentos como o inventário, a separação e o divórcio consensuais. Durante muitos anos, as famílias precisavam aguardar longos períodos para resolver questões que, muitas vezes, dependiam apenas da formalização de um acordo. Era comum um inventário permanecer anos tramitando no Judiciário, impedindo herdeiros de utilizar ou administrar seu patrimônio. Hoje, graças ao trabalho desenvolvido pelos notários e registradores em parceria com o Poder Público, muitos desses procedimentos podem ser concluídos em poucos dias. Isso representa um enorme ganho para a população, que passou a ter acesso mais rápido, eficiente e seguro aos seus direitos. Mas essa transformação não se limitou ao inventário e ao divórcio. Tenho muito orgulho de ter participado das discussões e iniciativas que ampliaram significativamente as atribuições dos cartórios em benefício da sociedade. Posso citar a mediação, a conciliação e a arbitragem, que oferecem caminhos mais céleres e consensuais para a solução de conflitos; o apostilamento de documentos, que facilitou a vida de milhões de brasileiros que estudam, trabalham ou mantêm relações no exterior; e a possibilidade de retificação do nome após a separação ou o divórcio, garantindo mais autonomia e simplificação aos cidadãos. Também guardo com especial satisfação a luta que travamos, ainda em 1998, em defesa da formalização da doação de órgãos e do corpo para fins científicos e humanitários. Foi uma iniciativa voltada à valorização da vida, da solidariedade e da segurança jurídica em um tema extremamente sensível para as famílias brasileiras. Quando olho para trás, percebo que todas essas conquistas têm algo em comum: elas ajudaram a tornar os serviços mais acessíveis, reduziram burocracias e permitiram que os cidadãos resolvessem questões importantes de suas vidas com mais rapidez, segurança e respeito. Esse sempre foi o meu maior objetivo. Mais do que criar projetos ou defender mudanças legislativas, o que me orgulha é saber que essas iniciativas impactaram positivamente a vida de milhões de brasileiros e contribuíram para transformar os cartórios em instituições cada vez mais próximas da sociedade.

 

 

Rogério Barcelar

 

5. E tem alguma novidade a acontecer que a que a gente pode esperar, por exemplo?

Nós estamos brigando para que saia a agenda de execução, para melhorar a vida do protesto de títulos. Também estamos brigando para que as especialidades tenham mais união. Porque a união… se nós fôssemos mais unidos, se uma especialidade não quisesse tirar serviço da outra — que é um problema seríssimo —, se conseguirmos isso, eu acho que fica muito difícil a gente não conseguir melhorar a nossa atividade. Porque eu acho que, unidos, não digo que somos imbatíveis, mas vamos perturbar muito. Cada notário e registrador é amigo de deputado, de senador, é amigo de todo mundo — cada um tem seu amigo. E, se nós unirmos essas amizades todas no sentido de melhorar a classe, eu acho que a nossa classe vai melhorar, e muito.

6. O senhor esteve à frente da criação da estrutura sindical nacional da classe, da CNR, ENNOR e RARES. Como nasceu essa visão e qual foi sua importância para o setor?

Quando comecei minha atuação no movimento associativo, percebi que os notários e registradores brasileiros possuíam grande relevância para a sociedade, mas ainda careciam de uma representação nacional forte, organizada e capaz de defender os interesses da atividade de forma unificada. Foi dessa percepção que surgiu a construção da estrutura sindical nacional da classe. O objetivo era criar um sistema sólido de representação, capaz de dar voz aos profissionais em todas as regiões do país e fortalecer o diálogo com os Poderes da República e com a sociedade. A criação da Confederação Nacional de Notários e Registradores (CNR) representou um marco nesse processo. Ela passou a reunir e coordenar os esforços das entidades estaduais, contribuindo para a valorização da atividade, para a defesa institucional da categoria e para o desenvolvimento de projetos estratégicos que impulsionaram a modernização do extrajudicial brasileiro. Sempre acreditei que nenhuma instituição evolui sem investir em conhecimento. A atividade notarial e registral exige preparo técnico, atualização permanente e compromisso com a excelência. A ENNOR nasceu justamente desse entendimento. Nosso propósito foi criar uma instituição voltada à formação, à pesquisa e ao aperfeiçoamento dos profissionais do extrajudicial, contribuindo para elevar ainda mais a qualidade dos serviços prestados à população. Hoje, vivemos um momento muito especial. Trabalhamos para conquistar o credenciamento pelo Ministério da Educação, o que permitirá transformar a ENNOR em uma faculdade. Essa é uma conquista que transcende uma gestão ou uma geração. Representa a consolidação de um projeto educacional capaz de formar líderes, pesquisadores e especialistas preparados para os desafios de um setor cada vez mais moderno, tecnológico e conectado às necessidades da sociedade. A Rede Ambiental e de Responsabilidade Social dos Notários e Registradores (RARES-NR) é o nosso braço social, onde fazemos campanhas do meio ambiente, campanhas de agasalho e campanhas para atender a população menos protegida. E agora nós estamos trabalhando também no efeito estufa e crédito de carbono: criamos um instituto de crédito de carbono, onde estamos levando isso, dialogando com o governo e mostrando a necessidade de dar a segurança jurídica necessária, tanto para as vendas como para as compras do crédito de carbono, como também para ser averbado nas matrículas dos imóveis o que está sendo utilizado no crédito de carbono. Nenhum projeto relevante é construído sozinho. Ao longo da minha trajetória, tive a felicidade de trabalhar ao lado de profissionais extremamente qualificados e comprometidos com o desenvolvimento do extrajudicial brasileiro. Na área ambiental e de crédito de carbono, destaco a importante contribuição da registradora Patrícia Ferraz, de Diadema, cuja experiência, dedicação e visão foi sido fundamentais para o avanço das discussões. Ela é uma referência nacional no tema e tem colaborado de forma decisiva para que possamos construir soluções seguras e alinhadas às necessidades do país. Mais do que criar entidades, o desafio foi construir uma visão de futuro. E tenho orgulho de ver que essa estrutura continua fortalecendo a atividade e preparando o setor para os desafios das próximas décadas.

 

 

Rogério Barcelar

Recebimento do registro sindical da Confederação Nacional de Notários e Registradores (CNR) pelo Ministério do Trabalho, com o Dr. Rogério como fundador e atual presidente.

 

7. Doutor Bacelar, o senhor sempre teve esse perfil tão proativo e envolvido em diferentes iniciativas, tanto sociais quanto no meio extrajudicial? O que o motiva a desenvolver tantos projetos?

Eu acredito que essa disposição para criar projetos sempre esteve ligada à minha preocupação com o futuro da atividade e, principalmente, com as pessoas que dependem dela. Muitas das iniciativas que ajudei a construir nasceram da observação da realidade e da identificação de necessidades concretas. O Prêmio de Qualidade, por exemplo, já fazia parte do meu planejamento estratégico antes mesmo de assumir a presidência da ANOREG Brasil, em 2001. Eu entendia que era preciso estimular a excelência, a inovação e a melhoria contínua dos serviços prestados pelos cartórios. Da mesma forma surgiram outros projetos importantes, como a escola de formação, que mais tarde se transformou na ENNOR, e as cooperativas de crédito, criadas para oferecer oportunidades e fortalecer economicamente a categoria. São iniciativas que nasceram de uma visão simples: construir instrumentos capazes de apoiar os profissionais e preparar a atividade para os desafios do futuro. Mas, acima de tudo, sempre procurei enxergar a realidade dos cartórios brasileiros como ela realmente é. O Brasil é um país de dimensões continentais, com características muito diferentes entre as regiões. Ao longo da minha trajetória, visitei todos os estados inúmeras vezes e conheci de perto tanto os grandes centros quanto as localidades mais distantes da Amazônia, do Acre, do Amapá e de tantas outras regiões. Essa experiência me ensinou algo muito importante: a grande maioria dos cartórios brasileiros é formada por pequenas serventias que desempenham um papel essencial para suas comunidades. Muitas vezes, são a principal porta de acesso da população à segurança jurídica e à cidadania. Por isso, sempre defendi que o fortalecimento dos pequenos cartórios é fundamental. Não podemos analisar a atividade apenas sob uma perspectiva econômica. O cartório existe para servir às pessoas. Em muitas localidades, o fechamento de uma serventia significaria obrigar cidadãos a percorrer dezenas ou até centenas de quilômetros para obter um serviço básico e indispensável. O que me motiva é justamente isso: encontrar soluções que fortaleçam a atividade, valorizem seus profissionais e garantam que a população continue sendo atendida com qualidade, independentemente de onde esteja. Afinal, a missão dos cartórios é servir à sociedade, e essa missão precisa alcançar tanto os grandes centros urbanos quanto as comunidades mais distantes do país. Ao longo dos anos, aprendi que os melhores projetos são aqueles que nascem da escuta, da experiência e do compromisso com as pessoas. Talvez seja essa a principal razão pela qual continuo acreditando na construção de novas iniciativas: porque sempre há uma forma de melhorar, incluir e servir mais e melhor à sociedade brasileira.

 

 

Rogério Barcelar

Termo de Cooperação Técnica entre a CNR e o Supremo Tribunal Federal (STF) para a realização do programa “Cartório Contemporâneo”, na TV Justiça.

 

8. Tem algum projeto inédito que o senhor gostaria de realizar nas serventias extrajudiciais, mesmo que ainda seja apenas uma ideia? E como essas ideias costumam surgir para o senhor?

Eu acho que pelas andanças, pelas viagens. Veja uma coisa: eu pedi ao deputado Gonzaga Patriota, hoje ex-deputado, que apresentasse um Projeto de Lei para registrar, no títulos do documentos, obras de arte, animais de raça e joias. A maior lavagem de dinheiro está aí. Mas, no Congresso Nacional, isso não sai, não anda, né? Talvez por falta de interesse. Mas é assim mesmo. Então, seria uma forma de comunicação à Receita Federal quando a obra de arte, os animais de raça — que podem ser cavalos, vacas, ovelhas, ou até sêmen, que custa milhões — fossem registrados. Pode custar mais de 30, 50 mil, não me lembro exatamente o valor que foi colocado. Aí teria que comunicar à Receita Federal. Mas não existe interesse. E, no entanto, seria uma solução para reduzir a corrupção no Brasil, uma forma de ajudar a combater isso. Porque, muitas vezes, pintam os “ninhos de cupim” das fazendas de branco e sobrevoam a área — antigamente se fazia muito isso — e dizem que é gado. Mas, se descer o avião, veria que não é, que é cupim.

 

 

Rogério Barcelar

 

9. Ao longo da sua trajetória, como titular de cartório ou na atuação em entidades de classe, o senhor poderia compartilhar alguma situação marcante — seja engraçada ou emocionante? Um “causo” notarial, como costuma dizer o Dr. Arthur Del Guércio Neto

Um causo notarial que me marcou bastante foi sobre um dos primeiros testamentos que eu fiz na vida. Não vou citar o nome da pessoa por questão de Lei de Proteção de Dados. O senhor era bem idoso, morava sozinho em uma chácara, e tinha uma menina que cuidava dele — fazia café, lavava roupa, cuidava de tudo. Ele quis fazer um testamento para deixar toda a parte disponível para ela, como forma de gratidão. Eu anotei os dados e perguntei se ele queria assinar na hora, porque, naquele tempo, o testamento era manuscrito; depois se datilografava para entregar. Ele combinou de voltar na quinta-feira para assinar, mas não apareceu. Na sexta, também não. Na segunda-feira, apareceu o pai da menina perguntando se ele tinha ido assinar. Eu expliquei que não, que ainda estava aguardando. O pai disse: “Velho vagabundo, dei minha filha em troca das coisas e ele não aparece!” Mas, na verdade, ele não estava tratando a filha como objeto; ele queria apenas recompensá-la pela dedicação e pelos cuidados que ela teve. O homem tinha passado por um período grave de doença, e os filhos, aproveitando a situação, chegaram a tirar a aliança dele e transferir todos os bens para si, sem ele consentir. Então, a única forma dele garantir algo para quem cuidou dele foi esse testamento para a menina. Infelizmente, a vida é assim. Ele não tinha maldade, mas o pai da menina queria se aproveitar da situação. São essas experiências que mostram que, no notariado, lidamos com questões humanas muito profundas.

10. De tudo o que está acontecendo em âmbito nacional, como o senhor enxerga a informatização e o uso da inteligência artificial nas serventias?

Eu vejo a informatização e a inteligência artificial como uma evolução natural da atividade notarial e registral. Ao longo da história, os cartórios sempre acompanharam as transformações da sociedade, incorporando novas tecnologias para oferecer mais eficiência, segurança e qualidade aos cidadãos. Com a inteligência artificial não será diferente. Não acredito que a tecnologia venha para substituir as pessoas. Pelo contrário. Ela surge como uma ferramenta poderosa para apoiar o trabalho humano, permitindo que os profissionais concentrem seus esforços em atividades que exigem análise, discernimento, responsabilidade e sensibilidade — características que nenhuma máquina é capaz de reproduzir plenamente. O que certamente mudará é a forma de trabalhar. Os profissionais que buscarem atualização contínua, adquirirem novas competências e compreenderem o potencial dessas ferramentas terão ainda mais oportunidades de crescimento. Em contrapartida, como aconteceu em todas as grandes transformações tecnológicas da história, quem resistir à evolução acabará encontrando dificuldades para se manter competitivo. A inteligência artificial pode contribuir significativamente para automatizar tarefas repetitivas, organizar informações, agilizar pesquisas, aprimorar fluxos de trabalho e aumentar a produtividade das serventias. Isso significa mais agilidade para os usuários, redução de burocracias e um atendimento cada vez mais eficiente. Mas existe um aspecto que considero fundamental: a tecnologia deve estar sempre a serviço da segurança jurídica. Os cartórios são instituições de confiança da sociedade. Por isso, toda inovação precisa caminhar ao lado da responsabilidade, da proteção de dados, da autenticidade dos atos e da preservação da fé pública. Acredito que estamos vivendo um dos momentos mais promissores da história da atividade extrajudicial. A transformação digital, a interoperabilidade dos sistemas, os atos eletrônicos e, agora, a inteligência artificial, ampliam nossa capacidade de servir à população com excelência. O futuro não pertence à tecnologia isoladamente, mas à combinação entre inovação e conhecimento humano. E tenho convicção de que os notários, registradores e seus colaboradores continuarão sendo protagonistas desse processo, utilizando essas ferramentas para fortalecer ainda mais a segurança jurídica e a qualidade dos serviços prestados aos brasileiros.

11. Quais das suas qualidades o senhor considera essenciais para alcançar o sucesso e continuar atuante em sua carreira?

Eu acho que não é só uma questão de qualidade individual. Uma andorinha só não faz verão. O mais importante é se cercar de gente boa. Tanto na ANOREG quanto na Confederação, meus colaboradores são excelentes. Minha diretoria sempre trabalhou junto comigo, e isso é o que realmente importa. Você, sozinho, não faz nada; só consegue realizar com a ajuda dos outros. Não adianta chegar e dizer “ah, eu fiz”. Eu não fiz nada — nós fizemos juntos. Acho fundamental frisar isso, porque é preciso valorizar quem te ajuda. Por exemplo, o Germano Toscano Brito, tabelião e ex-presidente da ANOREG da Paraíba, trouxe a ideia do Dia do Notário e Registrador, e essa iniciativa foi fundamental. Ele deu a ideia, eu pedi para o Augusto Henrique Nardelli Pinto, nosso assessor parlamentar à época, executar o que eu queria, e entreguei ao deputado para dar entrada. Trabalhamos com o relator, e assim surgiu o Dia do Notário e Registrador. O Cláudio Marçal foi presidente da ANOREG do Brasil, me ajudou muito com o Sindicato de São Paulo, no sentido de entrar com algumas ações. Na época, não tínhamos condições financeiras, e o Sindicato de São Paulo tinha, e bancou algumas ações para que a ANOREG do Brasil pudesse atuar. Se ele não tivesse feito isso, talvez os notários e registradores pequenos não tivessem resistido; hoje, alguns quase não existiriam mais. Tem também o pessoal do Amazonas, como o David Gomes David e o Marcelo Lima Filho, que me ajudam muito. No Pará, a Moema Locatelli Belluzzo é uma jovem com grande futuro na classe, assim como o Marcelo, pessoas ativas e novas. Em Brasília, tem o Emival Moreira, Luiz Gustavo Leão, Alan Nunes Guerra, Hercules Benício e Paulo Henrique Moreira e o Mc Arthur Di Andrade Camargo, primeiro tabelião de Brasília, com uma obra social incrível, que ganhou prêmio do Congresso Nacional, atendendo crianças menos favorecidas. Cada estado tem sua relevância e nos ajuda barbaridade. Não se pode simplesmente ignorar a atitude de cada um deles, porque são essas atitudes que nos fazem crescer. E não é você puxando para si o que os outros estão fazendo; é o trabalho conjunto que importa.

 

 

Rogério Barcelar

 

12. Que recomendação o senhor daria para empresas que desejam atender bem os cartórios?

A principal recomendação é que atuem com transparência, ética e compromisso com a entrega. Os cartórios são instituições baseadas na confiança e na segurança jurídica, e esperam o mesmo de seus parceiros. Temos visto várias empresas — não só de tecnologia, mas também bancos, pequenos e grandes — prometendo muito e não entregando nada. Querem financiar tudo, mas, na prática, não fazem nada. Muitas empresas apresentam excelentes propostas e grandes promessas, mas o que realmente faz diferença é a capacidade de cumprir aquilo que foi acordado. Mais do que vender produtos ou serviços, é preciso compreender a realidade das serventias, ouvir suas necessidades e construir soluções efetivas. As melhores parcerias são aquelas fundamentadas na credibilidade, no respeito e na geração de resultados concretos. Quando há seriedade e alinhamento de propósitos, todos ganham: as empresas, os cartórios e, principalmente, a sociedade que utiliza esses serviços.

13. Para encerrar, que conselho o senhor daria para quem está nessa jornada nos cartórios — seja estagiário, auxiliar, escrevente, concurseiro ou quem acabou de assumir uma serventia?

O primeiro conselho que eu daria é: valorizem o aprendizado e respeitem a história da atividade. Nenhuma instituição chega ao seu estágio atual por acaso. Existe uma trajetória construída por muitas pessoas que dedicaram tempo, trabalho e compromisso ao fortalecimento dos cartórios brasileiros. Para aqueles que estão ingressando na atividade por meio dos concursos, é importante compreender que inovação e renovação são fundamentais, mas elas produzem melhores resultados quando caminham ao lado da experiência. Ouvir quem já percorreu essa jornada ajuda a evitar erros, ampliar a visão e compreender os desafios que a atividade enfrentou para chegar até aqui. Aos escreventes, substitutos e demais colaboradores, minha recomendação é que nunca deixem de investir em qualificação. O conhecimento prático adquirido no dia a dia da serventia é extremamente valioso e constitui uma base sólida para o crescimento profissional. Sempre que possível, é importante conciliar essa experiência com o estudo e a atualização constante. Também acredito que devemos buscar mecanismos que valorizem aqueles que dedicam anos de sua vida ao funcionamento dos cartórios. Os profissionais que conhecem a atividade na prática possuem uma contribuição importante para oferecer ao sistema e merecem oportunidades de crescimento compatíveis com sua experiência. Acima de tudo, diria a todos que atuam ou desejam atuar no extrajudicial que enxerguem essa atividade como uma missão de serviço à sociedade. Os cartórios estão presentes nos momentos mais importantes da vida das pessoas, garantindo segurança jurídica, cidadania e confiança. Quem compreende esse propósito encontra na atividade não apenas uma profissão, mas uma oportunidade de gerar impacto positivo na vida de milhões de brasileiros.

Bate-Bola

Qual é o seu time de futebol?

Coritiba Foot Ball Club. Inclusive, já fui presidente do clube.

Um livro preferido

Eu gostei muito de um livro do Saulo Ramos, Código da Vida. Nele, ele chega até a fazer críticas duras a um magistrado que depois se tornou ministro do Supremo — e que ele próprio indicou quando era ministro da Justiça. Ao longo da obra, ele conta a sua trajetória e também a dinâmica do seu escritório de advocacia. Ele relata que contava com uma equipe bastante completa — com detetive, investigador, psicólogo, engenheiro — o que permitia entrar nos processos já muito bem-preparado, inclusive com uma estimativa do percentual de êxito. Hoje, muitos grandes escritórios atuam dessa forma, mas ele foi um dos pioneiros nesse modelo. É um livro bastante conhecido.

Qual é a sua música predileta?

Eu não tenho uma música predileta. Acho que a música predileta é aquela que, no momento em que você está — às vezes até com o astral mais baixo — você escuta e se identifica. Para mim, é tudo meio igual nesse sentido; não tenho uma específica.

E há alguma personalidade que o senhor admira?

Eu admirava muito o ministro José Carlos Moreira Alves, que já faleceu. Hoje, o que eu percebo é que existem várias personalidades que são admiradas, mas está cada vez mais difícil admirar alguém. O cenário atual está muito confuso: há dois blocos nas ruas, e o povo acaba servindo de palhaço para ambos. O Moreira Alves era uma pessoa diferente. Na época dele, ministro do Supremo não falava sobre processo em andamento, não se envolvia em política; só se manifestava depois do julgamento. Isso é algo que deveria voltar a existir no Brasil. Lembro, inclusive, de a própria ministra Cármen Lúcia ter comentado comigo que a pior coisa que aconteceu com o Supremo Tribunal foi a TV Justiça, porque muitos colegas passaram a se exibir mais. Em vez de simplesmente acompanhar o relator, cada um quer demonstrar mais conhecimento que o outro.

Uma saudade?

Saudade eu tenho do meu pai, da minha mãe e do meu irmão Rui, que já morreram.

 

 

Rogério Barcelar

Romeu (branca), Rogério (branca), Ronaldo (Cinza), Rubens (verde), Roberto (Listrada vermelha), Rui (preta).

 

Uma citação:

"Sei que amor é sofrimento. Passa a vida a querer bem, passa o dobro da vida a não ter ninguém". Isso é de um dicionário de citações.

Um hobby

Eu tive, tinha, né. Jogava futebol, gostava de pescar. Andava a cavalo… mas hoje não tenho tempo de nada. Não tenho tempo mesmo, e é difícil, porque eu viajo muito. Eu fico em Curitiba, geralmente, na segunda e na sexta — quando não estou viajando pelo resto do Brasil. Terça, quarta e quinta, fico em Brasília. Aí, quando chega o final de semana, antes eu ia para a minha chácara, andava a cavalo, fazia minhas coisas… Hoje, não. Agora eu preciso voltar a andar a cavalo, voltar a fazer exercício. Até agora, ainda não consegui.

 

 

Rogério Barcelar

Celebração dos 70 anos.

 


jornalista Samila Ariana Machado

"Histórias do Ofício" É uma iniciativa em parceria entre o INR e a jornalista Samila Ariana Machado. A coluna traz entrevistas exclusivas com personalidades do setor notarial e registral do Brasil e do exterior, revelando não apenas suas trajetórias profissionais, mas também seu impacto social e sua essência humana. O projeto conta com o apoio de importantes nomes e instituições do segmento: ICNR — Instituto de Compliance Notarial e Registral, Blog do DG, GADEC Cartórios — Grupo de Alto Desempenho em Estudos de Cartório, Pedro Rocha (Tabelião e Registrador Civil), Rogério Silva (empresário especializado em livros raros, clássicos e antigos), Jornal Diário, Douglas Gavazzi — Advocacia e Consultoria Notarial e Registral, e Estudos Notariais.

Com um olhar sensível e aprofundado, Histórias do Ofício valoriza os profissionais que constroem, com ética e dedicação, o presente e o futuro do serviço extrajudicial.

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